Fricassé da discórdiaNo meio de tantos e-mails sem loçônicos que recebo todas as manhãs, um brilha, ilumina meu dia e, se eu tivesse um coração, ele pularia de felicidade nesse momento: é o e-mail com o cardápio do restaurante que eu almoço quase sempre. É um restaurante escola, que fica dentro de um centro cultural e faz parte do projeto social de uma ONG. Além de ser uma delícia, eles ainda me mandam o cardápio e tornam o início do expediente muito mais animado.
Normalmente há os mesmos tipos de carne: sempre tem peito de frango grelhado, contra filé, filé de peixe, essas coisas, mas todos os dias tem um prato especial, diferente. Eis que hoje, quando chega o e-mail, vejo que a surpresa do dia é FRICASSÉ DE FRANGO.
Humilhada, fui procurar no Google o que é um fricassé, coisa da qual eu só havia ouvido falar por causa do desenho do Pica Pau em que o jacaré fala todo rebolativo que vai fazer "fricassé de pica pau". Mas até então eu nunca tinha me interessado em saber o que era. Ao fazer a pesquisa, achei várias fotos mostrando que fricassé, com uma variação ou outra, é uma espécie de torta com milho, batata, creme de leite gordureba. Uma maravilha calórica. Que eu não ia poder comer. Essa parte quase arruinou o momento feliz do dia, mas logo passou, porque todo o resto lá é bom. Pausa para sonhar com o almoço de amanhã.
Continuando, cheguei lá resolvida a pedir o bom e velho peito de frango com purê de batatas, quando, sei lá por que, resolvi lamentar com a garçonete que eu não ia querer o tal fricassé porque tinha creme de leite. E ela: "Não, não tem creme de leite não". Uai... "E como é, então?". "É coxa e sobrecoxa de frango com molho de páprica e legumes!". Todos os anoréxicos do meu grupo se agitaram com a palavra "legumes" e a ausência do creme de leite e pediram, já que era assim, o tal fricassé (é sempre melhor todo mundo pedir a mesma coisa pra um não invejar o prato do outro e alguém passar mal). Estranhamos um pouco o fato de fricassé ser aquilo (aparentemente todo mundo estudou antes), mas não estendemos o assunto.
Então, havíamos acabado de fazer o pedido, quando, do vale das sombras gastrônomicas, surge pulando como um saci uma senhora com um jaleco branco, sacudindo uma revista.
- QUEM FOI QUE FALOU QUE NÃO ERA FRICASSÉ?
Mesa paralisada de medo.
- QUEMFOIQUEFALOU? FORAM VOCÊS? FORAM VOCÊS QUE FALARAM QUE O PRATO QUE CHEGOU NA MESA NÃO ERA FRICASSÉ?
Olhar de ódio with lasers. Repórter Descontrol, nossa representante mais destemida, aventurou-se a responder:
- Olha, não foi aqui... nossos pratos ainda nem chegaram.
Cozinheirazilla vira-se, sem dizer palavra, quase derrubando tudo com sua cauda, e dirige-se à única outra mesa ocupada no lugar, onde três pobres seres comiam o fricassé.
- FORAM VOCÊS, NÃO É? Olha aqui - brandindo a revista com uma foto de um frango cozido igual ao que tinha no prato deles - isso aqui é um fricassé. Eu sou francesa, eu sei.
E os três viraram estátuas de sal imediatamente.
Credo em cruz, papito do céu. Pensar que poderia ter sido eu, num momento gordo, que podia ter pedido o prato e dito que eu queria com creme de leite. Ia ser eu o próprio fricassé. Com um toque de páprica. Sem creme de leite.
EXPECTATIVA ...

REALIDADE !


PROBLEM?