(CONTINUAÇÃO)
"Na escuridão e aperto daquele lugar, só o que ela podia fazer era esperar. Mas esperar pelo que? Quando ela poderia saber que estaria a salvo para descer? Quão paciente seria ele? Quanto ele esperaria por ela?
Subitamente, começou a tossir. A princípio, pensou que alguma poeira esquecida no fundo do armário poderia ter ido parar em sua garganta. No segundo seguinte, apavorada, compreendeu o que estava acontecendo, porque o cheiro de fumaça tornou-se evidente. O homem havia colocado fogo em alguma coisa. Talvez fogo na casa! Não! Preferia morrer nas garras daquele maluco que morrer queimada, sairia dali imediatamente. Ele havia conseguido a forma perfeita para fazê-la se entregar.
Empurrou a porta do armário. Não abriu. Fez mais força. Esmurrou. Nada. A porta estava travada, ele havia trancado. Ela não se lembrara de levar a chave, mas nunca poderia imaginar que ele iria querer trancá-la lá dentro. Aliás, teria sido difícil imaginar qualquer coisa. Estava lidando com um bandido, nunca pensou que um dia precisasse passar por aquilo. Sentiu uma desolação imensa. Lembrou-se da mãe. Chamou por ela. Sua tosse misturou-se com lágrimas. Iria morrer da pior forma, presa em um armário em chamas.
Nunca mais ouviu-se falar do homem que entrou em um apartamento e colocou fogo com uma moça presa dentro do armário. O zelador descreveu o rapaz bonitão – que ficou conhecido como “o assassino do sexto andar” pelos moradores do prédio – à polícia, mas nunca conseguiram encontrá-lo. Todos no condomínio tornarem-se tensos de uma hora para outra, as mulheres evitavam entrar ou sair sozinhas de suas casas à noite – embora todos soubessem que o crime acontecera durante ainda dia claro, às 7 horas da noite em horário de verão.
O capitão Motta ajeitou as costas na cadeira. O batalhão havia sido um tédio em seu último plantão – nenhuma ocorrência. Em duas horas, ele iria para casa, para o fim de semana, e ansiava por isso. Não gostava de ficar à toa ali, não havia escolhido ser oficial do corpo de bombeiros para passar o dia jogando paciência no computador e conversa fora com a equipe. Lamentava a monotonia, mas bem que aquele incêndio poderia ter esperado o outro plantão. Era sempre assim: ele detestava dias parados, mas quando algo acontecia, preferia não interromper o nada que estava fazendo.
Teve um minuto para parar de pensar nisso e rumar para o local do incêndio. Era um prédio antigo de classe média com vários apartamentos. Quando chegou, foi logo informado pelo porteiro de que o fogo já havia sido controlado. Soltou um muxoxo. Quanta correria à toa. Não devia, mas perguntou assim mesmo:
- E por que então o Corpo de Bombeiros foi acionado com tanta urgência?
Quem respondeu foi o síndico, que chegava um tanto transtornado após ter liderado o mutirão com extintores de incêndio para conter o fogo.
- Porque a moradora está desaparecida.
Em poucos minutos, o capitão tinha a história. O porteiro estava certo de que a garota passara pela portaria por volta das 19h.
- Ela tem carro, moço, mas o apartamento dela não tem vaga na garagem, por isso, ela pára num estacionamento aqui perto, então, eu vi quando ela passou por aqui, tenho certeza.
Essa parte ele já tinha entendido.
- Não há possibilidade da moça estar em algum apartamento do prédio? Em algum local?
O síndico tomou a palavra.
- Já vasculhamos tudo, interfonamos para todos os apartamentos. Se o Sr. Severino a não tivesse visto entrar, ninguém saberia que ela está aqui. Ela é sozinha.
Motta sentiu um calafrio. Já havia tido oportunidade de encontrar 10 dias depois da morte o corpo de um homem que vivia sozinho e tinha sofrido um enfarte. Não queria passar por aquilo novamente.
- Por favor, leve-me até o apartamento.
O lugar estava quase totalmente destruído. As paredes escuras, os móveis queimados. Motta procurou vestígios dela em meio às cinzas. Nada. Não havia muito o que procurar: um quarto, uma sala, cozinha, banheiro. Olhou pela janela do quarto. Não, ela não havia se jogado, afinal, alguém teria visto o corpo. Seria uma hipótese, já que, sob o pânico intenso da iminência de uma morte por queimadura, as pessoas cometem mesmo este tipo de loucura. O que o medo não era capaz de fazer com as pessoas...
Só não havia olhado embaixo da cama. Mas para quê ela iria se enfiar debaixo da cama? A cama... repentinamente, Motta reparou que o que havia sobrado da cama estava encostado no armário. Por quê?
Mais tarde, ele não saberia precisar o que o levou a conseguir uma escada e verificar o armário. Seu lado religioso diria que foi um milagre, seu lado cético, o faro adquirido por 10 anos de profissão. Fosse como fosse, não saberia também descrever se realmente ficara surpreso ao descobrir a jovem moradora do apartamento encolhida no fundo do compartimento, insconsciente, provavelmente com alguns danos respiratórios e nos órgãos internos causados pela fumaça e pelo calor. Ela estivera por alguns longos minutos em um forno, protegida pelas paredes de cimento de um armário estranho. Mas sobreviveria."
(Fim do conto "Aquela sexta", por Fernanda Rena, escrito entre 2 e 22 de novembro de 2002)