Que situação...
Trabalhar em um hospital de câncer, mesmo que não seja na área médica, tem uma série de conseqüências. Afinal de contas, infelizmente, todos os dias aparece alguém com esta doença por aí. Então, volta e meia, algum fornecedor/jornalista/conhecido/político e a mais variada classe de pessoas liga para nós para ver se podemos ajudar a internar um parente/amigo/conhecido/primo da vizinha da empregada. Em geral, a única ajuda que podemos dar é a informação correta de onde a pessoa tem que ir, o que levar, horário, essas coisas, porque fila de hospital público não se fura. E ponto final. Claro que nem todo mundo entende isso, então, a cada vez que aparece um pedido desses de "ajuda" a gente desanima, porque sabe que a pessoa pode ficar decepcionada e reagir mal por a gente não poder fazer mais.
Outro dia, ligou um sujeito para lá atrás do Thyrso. Não me lembro bem quem era, acho que ele tinha ajudado em algum evento. Então o cara queria pedir para matricular a mãe dele no hospital. Thyrso correu para pedir opinião para mim (o oráculo):
- O que eu faço, Fernanda? Ajudo?
- Ah, Thyrso, dê a única ajuda que podemos: informação.
Ele, desanimado com o que poderia ter que enfrentar:
- Tá... vou ligar para a Triagem e tentar recolher o maior número possível de dados.
Algumas horas depois, eu já tinha até esquecido o caso, quando voltei do almoço e o Thyrso me olhou com uma cara feliz:
- Que foi, Thyrso?
- Ah, é que eu não vou precisar mais ver nada para a mãe daquele cara.
- É mesmo? Por que, ela conseguiu matrícula em algum outro lugar?
- Não... ela morreu.
Impressionante como ele realmente não conseguiu deixar de ficar feliz com isso.