"Era ele. Inacreditável, mas era verdade. Depois de 10 anos, lá estava Luigi na sua frente. Tinha sentido cada dia daqueles anos, dias em que ela muitas vezes saíra de casa pensando em encontrá-lo de repente na rua, mesmo sabendo que ele morava em outra cidade. Dias em que tinha colocado uma roupa, se olhado no espelho e pensado que aquela aparência não estava boa, pois se encontrasse Luigi não era assim que ela queria que ele o visse. Dias em que ela tantas vezes o vira nos rostos de outros homens, homens que não se pareciam com ele, mas nos quais ela o via, ainda assim. Como na canção do Roberto. Lamentavelmente, nunca era realmente ele. Mas, naquele dia, era.
Em uma fração de segundos, pensou no quanto lamentara quando ele disse que ia deixá-la, no quanto chorara quando soube que ele havia se mudado para longe com uma de suas amigas. Na outra fração de segundos, pensou que ele não poderia vê-la daquele jeito. Ela estava horrível! O cabelo estava despenteado, a roupa estava ruim – por que diabos tinha colocado aquela blusa amarela? Ela odiava aquela blusa! – não era definitivamente o dia e a hora do grande encontro. Então abaixou a cabeça. Eles não iriam vê-la.
- Adriana!
Não haveria mais como fugir. A amiga a tinha visto. E Luigi também. Cumprimentaram-se, trocaram algumas palavras protocolares de pessoas que não se vêem há tanto tempo. Estar em contato com Luigi era incrível. Qualquer contato com ele era maravilhoso. Paula, a amiga e namorada dele, pediu licença aos dois para ir até a casa dos pais – estavam na rua dela – e, de repente, Adriana viu-se sozinha com ele. Antes de conseguir dizer qualquer coisa, ele puxou-a e falou, com o rosto perigosamente próximo:
- Eu escolhi a Paula e morar em outra cidade. Mas, por mais que tenha tentado, nunca pude esquecer disso.
E a beijou. E como era impressionante que, dez anos mais velha, pudesse ainda sentir a respiração fugir com o beijo dele. O melhor beijo do mundo. Um que ela jamais encontraria em nenhum outro.
“O que é que eu não faço/por onde eu não ando/o que é que eu já não tenho/quando é que eu não venho/onde fica a tua casa/porque é que eu não acho/quanto é o teu retrato/como é que eu vou embora...”
Música? Kid Abelha? Ali, no meio da rua, e de repente? Parecia tocar dentro da cabeça dela enquanto ela beijava, beijava e recebia o beijo... e então, ela finalmente percebeu o que era. O rádio-relógio, seu despertador musical. Sorriu e abriu os olhos devagar. Estava longe de estar frustrada. Muito longe. Sabia que teria um dia maravilhoso por conta daquele sonho. E, naquela noite, ao fechar os olhos, incluiria em suas orações estar com ele novamente. Fosse como fosse."