O POST DA BARATA
Estava eu, tranqüila e calma feito água de poço, vendo o Dourado comemorar à exaustão a liderança da semana, ni qui entra uma barata voando pela janela. Isso mesmo, querido leitor dessa porcaria, uma BA-RA-TA. Cascuda. Veio rápido, batendo as asas, parecia um monstro louco. Nessa hora, o melhor a fazer é chamar Papai Joselito para exterminar a criatura, certo? Errado. Porque Papai e Mamãe estavam viajando. Nem a Sassá sobrou. Em questão de milésimos de segundos, saltei da cama, fechei a porta do quarto e fiquei parada, pensando no que ia fazer.
Coragem
Fui pra sala me acalmar. Eu não poderia ficar para sempre do lado de fora do quarto. A televisão e o computador estavam ligados, tudo meu estava lá dentro... eu ia TER que entrar. Respirei fundo e fui na despensa ver se tinha daqueles sprays de matar insetos. Lada. Xinguei algumas gerações da família de Papai (e da minha também), porque ele é responsável pelas compras da casa e nem pra ter um item de extrema necessidade como esse. Enfim, não havendo outra solução, catei um chinelo pra matar a bicha. Do meu pai, pra me inspirar e me dar forças para a terrível batalha que eu teria que travar.
Desespero
Abri a porta do quarto e procurei por uns cinco segundos antes de encontrá-la. Ela estava lá, na porta do meu armário. Parecia imensa, era um monstro horrendo! Fechei a porta de novo. Eu não ia conseguir! Fui pra sala e abri o berreiro. Ficava falando sozinha “Droooga, como esse bicho entrou aqui? Que porcaria! Que que eu faço agooora? Logo hoje que eu estou sozinhaaa!” Parecia cena de sitcom. Cogitei a hipótese de chamar um vizinho ou ligar pro meu ex vir matar. Ex que vira amigo serve pra essas coisas. Descartei a idéia porque ele ia demorar tanto que, até ele chegar, era capaz de eu ter feito amizade com a barata e ele encontrar nós duas jogando um biribinha.
Decisão
Logo percebi que ninguém ia me ajudar, já que eu estava mesmo sozinha, então decidi que tinha que enfrentar. Comecei a repetir o mantra “Barata não morde, ela não vai me fazer mal, não morde, não vai me...”
E abri a porta do quarto. Fui pra cima dela com o chinelo, decidida, mas a filha de uma barata fugiu de mim. Porra! Ela partiu pra debaixo da minha cama e sumiu. Aí a minha situação piorou. Eu não ia dormir naquele quarto com uma barata “em algum lugar”. Eu podia acordar com ela deitada do meu lado, com a cabeça encostada no meu travesseiro, roncando. Não dava. Desliguei o computador e a TV, tirei as coisas de que eu ia precisar do quarto, sempre olhando pra ver se a danada não aparecia. Nada dela. Fechei a porta e resolvi dormir no quarto dos meus pais. Decisão tomada, fui tomar banho, que já era quase meia noite e a abençoada aqui ia ter que acordar às 6h15 da madrugada no dia seguinte. Superlegal.
Revolta
Tomei meu banho mais ou menos calma, pensando em como ia fazer com a barata no dia seguinte. De repente, Papai matava quando chegasse. Ou a empregada, coitada que ia aparecer antes. Fiquei tentando decidir se ia contar ou não pra ela que tinha um monstro embaixo da minha cama. Sei lá, ela podia achar que fosse mentira. Costumam não acreditar nessas histórias. E aí... pensando nessas coisas, distraída, saindo do banho... olho para um canto do chão e tu tu tu tu... a barata estava lá! Não era possível! Como ela tinha conseguido? E eu sem o chinelo lá dentro. Tive que passar por cima da bicha, pé ante pé, pegar o chinelo, chegar BEM PERTO pra ela não fugir de novo, e PÁ! Comecei a bater freneticamente nela, que resistia e ainda dava sinais de fugir mesmo depois de umas três pancadas. Eu gritava “MORRE, DESGRAÇADA!” e batia na barata. Jamanta não morreu, mas a barata, sim. Partiu para o céu das baratas. Foi lindo.
Considerações
Barata é um bicho muito burro. Se ela tivesse voado em vez de tentar fugir, me desarmava. Eu provavelmente teria uma barata cardíaca, quer dizer, uma parada cardíaca, e morreria na frente dela. Mas por que demônios ela não voou, apenas correu? Barata só é inteligente numa coisa: saca o lugar onde estão pessoas que têm pavor delas. Vejam. Ela poderia ter entrado em QUALQUER QUARTO, mas escolheu o meu, de uma pessoa que estava sozinha em casa e se desespera com bichos nojentos que voam. Acho, inclusive, que ela deve ter me espreitado semanas, esperado os meus pais viajarem, pra, então, atacar.
Histórias de bichos
Contando isso no trabalho, logo apareceram várias histórias de barata. Lembrei de uma vez em que minha mãe pegou duas baratas na mão e as deixou andar pelo corpo, pra mostrar pra mim e pra minha irmã que não fazia mal. Claro que a gente ficou traumatizada para sempre. Uma barata já caiu no meu ouvido enquanto eu dormia e ficou batendo as asas, eu escutando o barulhinho... uma outra vez, escorreu junto com a água do chuveiro pelo meu corpo e eu a vi saindo pelo ralo. Mas nada superou a história que a estagiária contou. Ela disse que tem mais pavor de cigarras, porque uma vez a mãe dela pegou uma na mão e depois disse a ela:
- Não tenha medo, filha, ela já foi embora...
E de repente abriu a mão com a cigarra na cara da criança. Pais e mães são muito joselitos.
Reação de Papai Joselito
Quando encontrei Papai Joselito hoje, contei a história e reclamei da falta do tal spray de veneno.
- A gente não pode ficar sem isso aqui em casa.
E ele, com um ar grave:
- É. E sem uma escopeta também.
Ele só brinca assim porque a barata não voou. Senão teria acontecido uma tragédia.