Doando sangue (na minha imaginação)As pessoas agora querem que eu doe sangue. Cismaram que eu tenho que doar sangue. Que mania. Pior é que uma dessas pessoas que cismaram sou eu mesma. Venho pensando nisso. E nem é pra tentar livrar a minha barra e não arder no mármore do inferno, não. É por altruísmo mesmo. Fico pensando que se todo mundo ficar deixando a doação pra depois não vai ter sangue pra ninguém no estoque e a situação de gente que precisa pode ficar desesperadora.
Um ataque de consciência assim, gratuito, sem motivo nenhum. Acho que estou ficando velha. Ano passado eu quase fui doar, mas estava com um pouco de anemia e não podia. Aí agora que passou estou pensando novamente nisso. Pior é que na última vez que eu fui tirar sangue pra fazer exame passei mal. A minha pressão despenca e eu pago mico mesmo.
Chego eu lá lépida e fagueira pra tirar o meu sanguinho anual. Toda feliz, porque eu já superei esse negócio de passar mal quando tiro sangue, sabem? Fiquei mocinha. Da última vez que eu tinha tirado, foi um tubinho só, tão rápido, e eu me comportei tão bem. Daquela vez não seria diferente.
Sentei na cadeirinha, a tiazinha que tira o sangue olhou o pedido de exame. E começou a tirar uns tubinhos de dentro de uma caixinha de tubos. Um tubinho... dois tubinhos... três... quatro... cinco... seis... sete... oito... Acabaram os tubos da sala. E a moça:
- Peraí que eu vou pegar mais tubos.
Que divertido! Será que ainda vai sobrar sangue em mim depois do exame? Tia, eu vim fazer exame, não vim doar. Chega ela com uma caixa com uns 20 tubos. Eu olho pra ela com olhos de ovos fritos apavorados, claro, e ela:
- Calma, não é tudo isso não – diz, mostrando a caixa com os 20 tubos.
Ahhhhh, bão, Conceição.
- Mas é tudo isso aqui – completa, tirando quatro dos 20 tubos e juntando aos 8 que ela já tinha separado, totalizando... DOZE TUBOS.
Doze tubos? Do-ze? Doze é dose (piada amarela anima a sua vida)! Esses médicos são malucos, cara, eles são totós da cabeça. Que tanto de exame tem que fazer numa pessoa saudável que requeira tanta quantidade de sangue?
E aí que ela foi tirando o sangue, e trocando os tubos... demorava tanto, no final eu já estava farta e comecei a achar que ia me sentir mal. Disse pra moça:
- Tem algum lugar onde eu possa ficar? Porque acho que a minha pressão baixou um pouco.
- Claro... lá atrás tem uma maca, quer deitar?
Ótima idéia. O problema é que pra chegar até a maca eu tive que levantar e no quinto passo já estava vendo tudo preto na minha frente. Deus sabe como cheguei lá sem cair, fui me escorando em duas funcionárias do laboratório, já não enxergava quase nada... até desabar na tal da maca. Bum. Um corpo que cai.
Aí... que mico. Eu não merecia isso, não. Por essas e outras, porque eu sou uma frouxa com carteira do clube dos frescos, é que eu nunca doei sangue. Mas qualquer hora dessas eu vou. Ao menos vou dar chilique por uma causa nobre e não porque a médica maluca resolveu me testar até pra doença que só dá em samambaia prenha.