O cheiro do raloSemana passada, segunda-feira, eu no computador ni qui começo a sentir um cheiro esquisito. Parecia de gordura, alguém cozinhando em óleo velho. Achei estranho, porque moro aqui há quase seis anos e nunca senti cheiro de cozinha entrando pela janela, mas, enfim, tudo é possível. Deixei pra lá.
Só que aí veio a terça. E, com ela, cheiro ainda mais estranho: de lixo. Meti a cara na janela, já esperando ver o caminhão na rua o caminhão de lixo troll - aquele que faz tanto barulho que às vezes me acorda na madrugada -, mas não tinha nada. Fiquei ali, intrigada, convivendo com aquilo até a hora de dormir.
Então veio a quarta. E, como o cheiro não passava, liguei pros meus pais e fiquei debatendo com eles o que poderia ser. Várias ideias surgiram. Olhei a casa toda, com medo de que fosse alguma coisa aqui dentro. Mas o cheiro parecia vir de fora e, mais esquisito vinha com o vento, em ondas. Às vezes eu ficava mais de uma hora sem sentir nada e, de repente, ele vinha. Cheguei a sonhar naquela noite que mamis ia na minha casa me ajudar a decifrar o que era aquilo.
Quinta. O bicho estava pegando, véi. Eu praticamente me pendurei na janela do 12° andar olhando pra cima, pra baixo, pros lados, pra ver se via um pombo, um rato (ratos mortos que alguém me jogou de volta, em vingança pelos tantos que já taquei), um morcego, gente, uma criatura qualquer morta que justificasse aquilo. Desolada, olhei pro prédio em frente e tinha uma pessoa olhando com uma cara estranha. Quase gritei: "Vizinha do outro lado da rua, sente esse cheiro? Alguém?". Comecei a cogitar ir lá embaixo e avisar alguém da administração do meu prédio, mas eu achava que eles não iam poder fazer nada, que pudesse ser uma fonte de lixo nova. Achei que a minha rua estivesse desvalorizada pra sempre.
Sexta. Acordo superatrasada pro trabalho, pensando que teria que ficar pra de noite ir procurar o zelador pra relatar o caso bizarro, já que eu não tinha nem cinco minutos. Só que aí, quando fui sair de casa pelo outro lado do apartamento, o cheiro vinha de lá também. Decidi que a coisa tinha ficado séria e fui falar. O moço foi atencioso, mas, como ninguém mais tinha reclamado, ele fez uma certa poker face e disse que era pra eu observar se continuava nos próximos dias.
Naquele dia, Mamãe Joselita me liga no fim da tarde pra dizer que estava a caminho da minha casa, pra tentar me ajudar a identificar o cheiro. Fiquei aliviada, ela podia descobrir alguma coisa que eu não tava vendo, né? E eis que, uns quinze minutos depois, eu no ônibus, ela liga pro meu celular e diz:
- Fernanda, já descobri o que é o cheiro.
Gente. Sei que mãe faz bruxaria, mas descobrir em alguns minutos um negócio que me encucava havia dias e que eu tinha procurado feito uma desvairada era demais.
- Não é possível, mãe! O que é?
E ela:
- É uma mosca morta.
OI?
- Mosca? MOSCA? Não, mãe, uma mosca não pode dar aquele cheiro forte.
Eu já imaginando uma mosca pré-histórica criada a Sustagen com Biotônico Fontoura morta na minha casa. - Como assim uma mosca, mãe?
- Foi assim, filha: euchegueinoseuprédioeoporteiroperguntouseeu podialevarasuacorrespondênciaaípassouumamoçaloira
- Mãe. Mãe. Pula essa parte e me explica da mosca. -
O meu primeiro fio de cabelo branco que ia vir só aos 40 vai nascer aos 38 só por causa da ansiedade desse momento. Tu tu tu (~le ligação caindo)
NÃAAAAAAOOOO!
Olhei em desespero para Rato Morto, que é cheiroso, é só Rato Morto de mentirinha, e disse:
- Rato, minha mãe falou que o cheiro é de uma mosca!
Ao que Rato me olha com seus olhos de rato e sentencia:
- Então tem cadáver, Fernanda. Se tem mosca, tem cadáver.
Valei-me, que é o apocalipse zumbi começando pela minha casa e eu nem tenho uma espada ninja pra me defender!
Toca o telefone de novo e é a minha mãe.
- Mãe, pelo amor de Deus, começa pelo fim da história e me explica o que é o cheiro.
- Tá, filha, o cheiro é de um vizinho seu do 10º andar que está morto desde segunda-feira e só agora acharam o corpo, porque você reclamou do cheiro.
...
PROBLEM???
O que é mais bizarro nessa história? O cara ter morrido e ninguém procurado por ele? Só eu ter sentido aquele cheiro horrível por dias a fio? Ou a minha mãe ter começado a contar a história dizendo que era uma mosca? Bom, se bem que devia ter moscas lá no morto.
Eu, sinceramente, já vou providenciar um objeto comprido e cortante e uns enlatados pra estocar em casa, porque ELES estão chegando. Walking dead feelings.